Lua – Um caso de Linfoma

06/06/2016
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O linfoma é um dos tumores mais comuns do cão e resulta de um desenvolvimento neoplásico das células linfoides de órgãos como o fígado, o baço, os linfonodos ou a medula óssea. No entanto, como os linfócitos existem em qualquer tecido corporal, os linfomas também se poderão desenvolver em qualquer outro órgão corporal.

Afectam normalmente animais de meia-idade ou cães idosos e algumas raças, como os Boxers, Rottweilers, Scottish terriers ou Golden Retrievers, têm uma maior predisposição para desenvolver a doença.

A forma mais comum de linfoma canino é a multicêntrica, isto é, aquela que leva a um aumento generalizado de todos os linfonodos. É a forma que afecta 80% dos cães com linfoma e, na grande maioria dos casos, é assintomática até fases mais avançadas da doença. Os sinais clínicos que a caracterizam são: letargia, anorexia, vómito, perda de peso.

O diagnóstico de Linfoma é normalmente relativamente simples de se obter, recorrendo-se a uma citologia por aspiração de algum material celular dos linfonodos aumentados.

Tratando-se de uma doença oncológica o tratamento para o Linfoma passa por estabelecer um protocolo de quimioterapia adaptado à doença e ao animal em questão. Os resultados e o prognóstico são, na maioria dos casos, bastante animadores.

A “Lua” veio à consulta pela primeira vez em Março porque não comia há 4 dias e porque tinha um inchaço na zona do pescoço e mandíbula. Encontrava-se mais apática, a beber mais água que o habitual e com algum desconforto na região do abdómen. Durante o exame físico verificou-se que apresentava, de uma forma generalizada, um aumento significativo de todos os linfonodos. Foi-lhe colhida uma amostra de sangue para um painel geral e foi feita punção ganglionar. Enquanto aguardávamos a chegada desses resultados, a “Lua” foi medicada com antibiótico e anti-inflamatório. Nos dias seguintes houve uma ligeira melhoria dos sinais clínicos, no entanto, o resultado das análises de sangue sugeria um forte suspeita de Linfoma, embora a punção ganglionar tenha sido inconclusiva. Foi realizada ecografia abdominal que revelou um aumento significativo do baço, do fígado e dos linfonodos mesentéricos. Para além disso, o fígado apresentava alterações estruturais revelando a presença de um nódulo com cerca de 2 cm de diâmetro. Foi feita uma punção ao baço cuja avaliação citológica confirmou a presença de um Linfoma. Perante este diagnóstico, foi estabelecido um protocolo de quimioterapia que a “Lua” teve de fazer ao longo de várias semanas.

No caso da “Lua” ela foi sujeita a um tratamento de quimioterapia endovenoso que exigia que viesse à clinica semanalmente para o fazer. Nesse mesmo dia era controlada através de análises sanguíneas. Posteriormente, os intervalos foram alargados para sessões a cada 3 semanas. Manteve-se sempre muito bem disposta e com valores analíticos muito controlados. O protocolo quimioterápico da “Lua” decorreu ao longo de seis meses, tendo entrado em fase de remissão no final deste período.

Devido à grande capacidade de reincidência deste tipo de tumores, um animal com Linfoma deve ser controlado analítica e ecograficamente de forma regular. No caso da “Lua”, cerca de um mês após terminar o protocolo de quimioterapia, foi realizada nova ecografia abdominal onde não foram detectadas alterações sugestivas de reincidência tumoral.

Cerca de um mês após este último controlo, a “Lua” apresentou-se à consulta com história de edema na zona frontal da cabeça e um ligeiro aumento dos gânglios linfáticos retrofaríngeos (embora todos os outros de tamanho normal), o restante exame físico sem alterações. Foi medicada com anti-inflamatório, no entanto, houve uma fraca resposta a este tratamento e voltou em quinze dias com Linfadenomegália generalizada, maior dificuldade respiratória e abdómen mais pendular e sensível à palpação (sugestivo de ascite, presença de líquido abdominal). Nesse mesmo dia fez um novo protocolo de quimioterapia endovenoso, que repetiu ao fim de 7 e 21 dias. Durante este período o edema da cabeça desapareceu, os gânglios linfáticos reduziram um pouco, a respiração normalizou e o líquido abdominal diminuiu consideravelmente. A “Lua” passou então a fazer um protocolo de quimioterapia por via oral, em casa, tendo ficado agendado um novo controlo analítico e ecográfico passadas duas semanas.

Infelizmente, a “Lua” teve uma nova recaída ao fim de uma semana, com agravamento dos sintomas respiratórios e de acumulação de líquido abdominal, não tendo resistido a esta nova investida do Linfoma. Acabou por morrer em casa.

Vera PiresFoto Dra. Vera Pires (Médica Veterinária)


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